
Gotejamento pós-miccional em homens sem cirurgia urogenital prévia: revisão sistemática e metanálise das modalidades de tratamento
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Introdução
O gotejamento pós-miccional é a perda involuntária de urina que ocorre logo após a micção, sendo uma queixa comum entre homens adultos. Embora frequentemente associado a cirurgias uretrais ou prostáticas prévias, muitos homens apresentam gotejamento pós-miccional primário, sem histórico de intervenções cirúrgicas. Apesar da elevada prevalência dessa condição, permanece limitada a compreensão sobre suas causas subjacentes e escassas as evidências que orientem abordagens terapêuticas eficazes. Esta é a primeira revisão sistemática e metanálise a investigar terapias para o gotejamento pós-miccional.
Objetivo
Revisar sistematicamente a literatura existente sobre estratégias de tratamento para o gotejamento pós-miccional primário em homens adultos e avaliar sua efetividade por meio de metanálise, quando possível.
Desenho do estudo
Revisão sistemática e metanálise, conduzida de acordo com as diretrizes PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses).
Número de pacientes
344 pacientes do sexo masculino incluídos nos quatro ensaios clínicos randomizados selecionados.
Período de inclusão
Estudos publicados desde o início das bases de dados até 2023.
Materiais e Métodos
Foi realizada busca abrangente em quatro bases de dados eletrônicas principais: Scopus, PubMed, ScienceDirect e Cochrane Library Database. Os critérios de inclusão foram estudos originais que avaliassem intervenções terapêuticas especificamente para gotejamento pós-miccional em homens adultos sem cirurgia prévia de uretra ou próstata. A qualidade e risco de viés de cada estudo foram avaliados utilizando ferramentas validadas. Os dados extraídos incluíram desenho do estudo, dados demográficos dos pacientes, modalidades de tratamento, medidas de desfecho (objetivas e relatadas pelos pacientes) e efetividade. A metanálise foi conduzida quando dados comparáveis estavam disponíveis; caso contrário, os achados foram sintetizados narrativamente.
Desfechos
Primários: Volume de gotejamento pós-miccional (medida objetiva)
Secundários: Sintomas relatados pelos pacientes, incluindo o Questionário de Gotejamento Pós-Miccional de Hallym
Critérios de inclusão e exclusão mais relevantes
Inclusão: Estudos originais avaliando intervenções terapêuticas para gotejamento pós-miccional em homens adultos sem cirurgia prévia de uretra ou próstata
Exclusão: Estudos em pacientes com histórico de cirurgia urogenital prévia
Resultados
Das 335 publicações rastreadas, quatro atenderam aos critérios de inclusão, todas sendo ensaios clínicos randomizados. Dois desses estudos avaliaram intervenções físicas ou comportamentais: exercícios da musculatura do assoalho pélvico e ordenha uretral. Os outros dois investigaram terapia farmacológica com inibidores da fosfodiesterase tipo 5: tadalafila e udenafila.Todos os estudos incluídos foram avaliados como tendo boa qualidade metodológica. Entretanto, os estudos envolvendo terapias físicas e comportamentais apresentaram algum risco de viés, principalmente devido a variações nas ferramentas de mensuração de desfechos. Devido a essa heterogeneidade, a metanálise não foi viável para esses estudos.
A síntese narrativa revelou que tanto os exercícios da musculatura do assoalho pélvico quanto a ordenha uretral reduziram o volume de gotejamento pós-miccional em comparação ao aconselhamento isolado, com os exercícios da musculatura pélvica demonstrando eficácia superior. Adicionalmente, um estudo relatou que os exercícios foram mais efetivos que o aconselhamento na redução de sintomas relatados pelos pacientes.
Em contraste, os dois estudos com inibidores da fosfodiesterase tipo 5 utilizaram medidas de desfecho consistentes e comparáveis, permitindo síntese quantitativa. A metanálise demonstrou um tamanho de efeito grande favorecendo os inibidores sobre placebo na redução do volume de gotejamento pós-miccional (g de Hedges = -0,86; intervalo de confiança de 95%: -1,75 a 0,02; p = 0,05), embora com heterogeneidade substancial (I² = 88%). Além disso, os desfechos relatados pelos pacientes, avaliados pelo Questionário de Gotejamento Pós-Miccional de Hallym, melhoraram significativamente com os inibidores da fosfodiesterase tipo 5, mostrando redução média de 1,06 ponto em comparação ao placebo (IC 95%: -1,65 a -0,47; p = 0,0004), sem heterogeneidade observada (I² = 0%).
Conclusão do Trabalho
A base de evidências para o manejo do gotejamento pós-miccional permanece limitada. Para fortalecê-la, estudos futuros devem empregar medidas de desfecho validadas e consistentes, juntamente com métodos aprimorados para avaliar a função do assoalho pélvico e a gravidade dos sintomas. Ensaios maiores e de alta qualidade são essenciais para estabelecer vias de tratamento claras e efetivas para essa condição comum, porém pouco abordada.
Comentário Editorial
Este trabalho representa a primeira revisão sistemática e metanálise dedicada ao tratamento do gotejamento pós-miccional primário, uma condição extremamente prevalente, mas historicamente negligenciada pela literatura científica. Os achados evidenciam que, apesar da alta frequência do sintoma, a base de evidências para orientar seu manejo é surpreendentemente escassa, com apenas quatro ensaios clínicos randomizados identificados.
Os exercícios da musculatura do assoalho pélvico emergem como uma intervenção não farmacológica promissora, demonstrando superioridade em relação ao aconselhamento isolado. Essa abordagem terapêutica é particularmente atraente por ser não invasiva, de baixo custo e praticamente livre de efeitos adversos, podendo ser implementada como primeira linha de tratamento.
Os inibidores da fosfodiesterase tipo 5, particularmente tadalafila e udenafila, apresentaram resultados estatisticamente significativos tanto em medidas objetivas quanto em desfechos relatados pelos pacientes. O mecanismo de ação proposto envolve o relaxamento da musculatura lisa uretral e do colo vesical, facilitando o esvaziamento completo da uretra pós-miccional. Esses achados são especialmente relevantes para pacientes que também apresentam disfunção erétil, permitindo abordagem terapêutica simultânea de ambas as condições.Entretanto, é fundamental reconhecer as limitações importantes deste trabalho. A heterogeneidade significativa entre os estudos com inibidores da fosfodiesterase tipo 5 (I² = 88%) sugere variabilidade nas populações estudadas, dosagens utilizadas ou protocolos de avaliação. A ausência de ferramentas de mensuração padronizadas e validadas especificamente para o gotejamento pós-miccional dificulta a comparabilidade entre estudos e limita a força das conclusões. Além disso, o número reduzido de ensaios clínicos e a amostra total relativamente pequena impedem generalizações mais robustas.
Estudos futuros devem priorizar o desenvolvimento e validação de instrumentos de avaliação específicos para o gotejamento pós-miccional, incorporando tanto medidas objetivas quanto desfechos centrados no paciente. Ensaios clínicos de maior porte, multicêntricos, com seguimento prolongado e análise custo-efetividade seriam fundamentais para estabelecer algoritmos terapêuticos baseados em evidências sólidas. A investigação de terapias combinadas (farmacológica e comportamental) também representa uma área promissora para pesquisas futuras.
Referência
Albakr A, Heba M, Ardalan G, Alrumaihi K. Post micturition dribble in men with no previous urogenital surgery: systematic review and metanalysis of treatment modalities. Continence 15S (2025) 101925. doi: 10.1016/j.cont.2025.101925

